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segunda-feira, 8 de março de 2010

O Outro Diário de Bordo 5: vida noturna



O Diário do L. 1 | 2 | 3 | 4
O Diário do R. 1 | 2 | 3 | 4 | 5

Todo mundo que acompanha os blogs do meu excelentíssimo marido R. (digo logo que os blogs são só dele porque é mais fácil vaca latir do que eu conseguir marcar presença aqui, hehehe) sabe que a descoberta pessoal de nossa (homos)sexualidade foi tudo, menos tranqüila - e tenho certeza de que a de todos vocês também foi, em maior ou menor grau, bem turbulenta. É sempre assim, né? No meu caso, mesmo vivenciando muitas experiências "na área" antes mesmo de chegar aos 18 anos, ainda me sentia angustiado e meio perdido. O fato: eu sabia que não estava sozinho no mundo, mas não fazia idéia de onde encontrar meus "semelhantes" - os outros garotos e jovens adultos gays, que era o núcleo com a qual eu gostaria de estar para aliviar um pouco a barra de me esconder em mentiras e omissões perante família e amigos.

Mal sabia eu que a cidade onde morei boa parte de minha vida, São Vicente, era uma das cidades mais visadas do mundo gay por abrigar um dos maiores pólos simpatizantes do estado: a tal Barraca da Cris e as infames boates GLS do alto do Ilha Porchat. Uma luz no fim do túnel!

Um belo dia, me enchi de coragem e, mesmo apavorado com a possibilidade de cruzar com algum conhecido ou algo do gênero, decidi conhecer a Barraca da Cris. Eu sabia que o negócio pegava fogo por volta da meia-noite até umas duas da madrugada, hora em que o povo seguia para as boates da moda. Meu plano era só ir até lá, beber um refrigerante e fumar uns cigarrinhos para depois ir embora. Não tinha intenções de conhecer alguém e terminar a noite dando uns amassos (ou dando algo mais, hahaha) em algum canto. Eu só precisava mesmo estar perto de gente igual a mim.

Enfim, avisei em casa que sairia para uma festa e não tinha hora para chegar. E fui até a Barraca da Cris. Um quiosque à beira-mar, lotado de toda espécie de gays, desde os mais novos como eu até os mais maduros, lésbicas, drag-queens... muita gente nas mesinhas do quiosque, comendo porções de qualquer coisa e bebendo muito, e uma multidão de gays em volta, conversando, dançando ao som de techno e vários casais de todas as combinações possíveis (!) namorando livremente sem a preocupação de sofrer retaliações ou ser reconhecidos. Aquilo, pra mim, era a mais perfeita tradução do "paraíso". Naquele primeiro momento, fui tomado por uma emoção meio difícil de descrever - pela primeira vez, me senti "em casa", como nunca havia me sentido.

Logo nesta primeira noite, decidi que não seria um sujeito completo se não entrasse, mesmo que por alguns minutos, em uma das boates do Ilha Porchat. Pouco importava se eu estava sozinho, se passaria a noite sozinho, ou de que forma iria embora às tantas da madrugada. Eu PRECISAVA fazer aquilo. Então, quando uma drag-queen, hostess de uma das casas noturnas, passou por mim distribuindo flyers, peguei um. E entrei no primeiro táxi que vi e subi o Ilha Porchat em direção a uma das boates.

Um mundo novo, posso dizer. Logo na entrada, fui abordado pelo garoto que identificarei aqui como G., que só me disse um "oi, tudo bom?" antes de me envolver em um beijo hiper-intenso. Os primeiros instantes foram aterrorizantes: mesmo estando em um ambiente gay, não consegui assimilar a idéia de beijar um outro garoto na frente de várias outras pessoas. Aos poucos, fui me deixando levar por aquele beijo, e então tudo fluiu normalmente. O G. me levou para conhecer os outros ambientes da boate: a pista de dança, o bar, o terraço (onde rolava uma deliciosa música ao vivo), o dark-room (onde o G. me forneceu uma das melhores sessões de sexo-oral que já recebi, hehehe), o palco de shows - onde uma drag-queen caricata que ninguém conhece chamada Sylvetty Montila quase me fez molhar as calças de tanto rir com suas piadas maravilhosas... :-D

Mais tarde, naquela mesma noite, fiquei sabendo que o G., um menino lindo com traços levemente orientais, era da Grande São Paulo e desceu a serra com alguns amigos só para ir àquela boate. Ele me disse, enquanto estávamos no terraço, que não se desgrudaria de mim e que só largaria minha mão na hora de ir embora - o que aconteceu lá pelas 5:30 da manhã, com o dia já clareando. Não preciso dizer que voltei para casa pisando em nuvens, mesmo sabendo que jamais encontraria o G. novamente - curiosamente, descobri anos depois através de uma ferramentinha chamada Orkut que o G. é amigo pessoal de um grande amigo meu, um dos cabeças de um site de Internet onde trabalhei, que sequer desconfia de minha homossexualidade. Mundinho pequeno, esse. ;-)

Cheguei em casa com a sensação satisfatória de ter finalmente descoberto meu lugar e minha família. Passei os vários meses seguintes freqüentando assiduamente a Barraca da Cris e as várias casas noturnas GLS do litoral de SP fim de semana após fim de semana, conhecendo pessoas, beijando alguns meninos e dormindo com outros meninos, dançando enlouquecidamente, emocionando-me com as saborosas melodias da bandinha de música ao vivo do terraço daquela boate, rindo até doer com as estúpidas tiradas das drag-queens caricatas... Acima de tudo, me sentindo feliz como nunca, privilegiado até, por ser homossexual, por poder ser eu mesmo, ainda que por poucas horas, sem medo de retaliações ou de manifestações de preconceito e afins. Ali, ninguém me criticaria por eu ser... eu. Senti em mim o verdadeiro significado do termo gay pride, embora nunca tenha sido, de fato, um militante.

O próximo passo, a meu ver, seria assumir de vez este orgulho em ser o que sou... perante aqueles que jamais imaginariam que eu pudesse ser o que sou. Sim, a hora de revelar meu grande segredo. Mas isso, fica para uma próxima! ;-)

Ass.: L.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Outro Diário de Bordo 4: sozinho na multidão... ou não?


O Diário do L. 1 | 2 | 3
O Diário do R. 1 | 2 | 3 | 4 | 5

Claro que eu sempre soube, muito claramente e com pouquíssimas dúvidas, que era gay. Entretanto, até minha primeira "verdadeira experiência sexual com outro homem" (quer saber mais, volte um episódio da segunda temporada desta nossa sitcom), não posso dizer que vivi meu homossexualismo da forma que deveria. O primeiro fator, óbvio: medo. Afinal, como um rapazolinha de 15 anos, sem qualquer conhecimento no meio, poderia sobreviver em um universo desconhecido e historicamente ingrato que é o mundo gay? Lia sobre gays vítimas de toda espécie de crimes de ódio, ouvia os comentários anti-"bichas" vindos de gente próxima, falava-se bastante da AIDS e eu simplesmente morria de medo de ser o próximo "alvo" de todo esse blá-blá-blá.

O envolvimento rápido, intenso e apaixonado com o E. abriu definitivamente a porta do meu armário pessoal (olha, gostei dessa!). Quando eu e o E. nos distanciamos e nossos encontros conseqüentemente cessaram, fiquei meio perdido, sem saber o que fazer, o que procurar e onde procurar.

Inicialmente, as revistas voltadas ao público GLBT tornaram-se meu refúgio: fiz amizade com uma velhinha dona de uma banca de jornais e todo mês, morrendo de vergonha e com o coração praticamente explodindo pelo peito tal qual o Alien quando nasce (!), eu batia cartão lá na véia para discretamente e silenciosamente adquirir as "novidades", desde publicações como a clássica G Magazine e a saudosa Íntima, até as mais podreiras como Internacional e aquelas revistinhas de fotonovelas. Consideremos que, em 1995, não havia a Internet como é hoje e as "aventuras" de sujeitos como Leo Giamanni, Chris Rockway e Marcelo Cabral eram quase inacessíveis a nós, pobres bichinhas brazuquinhas. (Sim, eu sei o nome de alguns astros pornô-gay. Hehehe!) :-D

Pena que, depois de ler as revistas (e me aliviar com elas, hehehe), não tinha outra saída a não ser dar fim em tudo - não adiantaria pilomba nenhuma tentar esconder os "vestígios" da minha condição, certamente eu seria descoberto em no máximo 20 minutos. Olha, se tivesse guardado todas as publicações pornô-gay que comprei e joguei fora, hoje precisaria de um apartamento só para elas! :-)

Claro que em pouquíssimo tempo esta válvula de escape já não era suficiente. Não queria mais viver minha sexualidade na base da "descascada de banana"; eu queria viver MESMO. Queria beijar alguém, queria transar com alguém, queria extravasar todo meu tesão. Acima de tudo, queria conhecer e estar perto de gente como eu - em outras palavras, não queria mais ficar sozinho. Mas não fazia idéia de como procurar. Como encontrar meu mundo?

Passei a prestar mais atenção nos anúncios das revistas que comprava, e um destes anúncios me levou a uma sauna gay que prometia ser "a casa dos mais belos homens que o litoral já viu", mas na prática estava entupida de caras mais velhos e ultrabizarros e garotos de programa tão ou talvez até mais estranhos do que os freqüentadores. Em questão de minutos, quatro sujeitos que deveriam ter quase um século de vida cada um (!) exibiram suas partes murchinhas para mim (!!) e um deles, dizendo que adorava menininhos e "precisava me possuir" (!?!?!), quase me agarrou à força. Nem preciso dizer que saí de lá sem chegar perto de ninguém e sem qualquer intenção de voltar...

Certa ocasião, cabulei aula e fui ao cinema sozinho, em plena segunda-feira à noite. Cinema quase vazio, com no máximo 8 ou 9 pessoas, incluindo um sujeito bastante alinhado e bonitão, quase um apresentador de telejornal, e uma namoradinha qualquer a tiracolo. Fui ao banheiro, fui seguido pelo sujeito e, para minha surpresa, sem qualquer diálogo, troca de nomes ou coisa que o valha, partimos para um rápido sexo oral mútuo, só para que eu pudesse ir embora correndo em seguida, apavorado, morrendo de medo por conta do risco de se trancar em um canto com alguém que não conhecia e também pela falta de proteção durante o ato. Definitivamente, não tive muito talento para banheirão. Hahaha!

(Mas como todo Zé Mané sem vergonha alguma na cara, devo confessar que superei o medo e voltei ao cinema algumas vezes, na esperança de que o tal "apresentador de telejornal" estivesse por lá para me satisfazer com mais uma sessão de sexo oral, o que obviamente nunca aconteceu.)

Este evento, porém, acendeu uma lâmpada na minha cabeça: os gays, na verdade, estavam espalhados por todos os cantos, escondidos sob as mais variadas e indiscutíveis máscaras. Minha busca seria, provavelmente, muito mais fácil do que imaginava. Tudo o que precisava fazer era abrir os olhos, olhar com mais atenção. O que nos leva ao sujeito que identificarei por aqui como F.

F. era um marmanjão no alto de seus 35, quase 40 anos, morava no litoral de São Paulo com a noiva (dentista) mas trabalhava na capital (delegado de polícia). O rosto do Ben Affleck (com o indefectível cavanhaque), a barba cerrada do Eduardo Moscovis e o corpo gostoso-porém-fora-de-forma do Murilo Benício no Força Tarefa. Ou seja, cara de homem MESMO, e uma das pessoas mais safadas na cama que já conheci, por mais que fosse dono do menor pênis que já vi (e quem disse que "tamanho é documento", né não? hehehe). Descobri o F. porque ele bebia cerveja no mesmo boteco onde eu e meus amigos de cólegio fazíamos nosso happy-hour toda sexta-feira. Trocamos olhares, estes olhares duraram algumas semanas e, quando finalmente consegui driblar os amigos e ir ao boteco sozinho, ele estava lá e veio falar comigo.

Eu não sou gay, ele disse, só curto umas "brincadeiras". Eu também, respondi. Você me lembra um amigo de faculdade, ele disse, um amigo que dividia um quarto comigo e com quem eu costumava "brincar" bastante. Procuro alguém para "brincar", ele disse, e você é um cara bem legal. Também procuro alguém sem compromissos, respondi. Minha noiva trabalha o dia inteiro e eu trabalho só à noite, ele disse, que tal irmos para a minha casa? Com muito medo, mas tentadíssimo pela possibilidade de ter alguém para transar sem qualquer vínculo de amizade ou afeição, aceitei.

Nossos contatos eram simples: ele ligava para a minha casa, identificando-se como "um amigo", marcávamos um horário e F. me buscava em algum ponto neutro. Enquanto a noiva trabalhava, passávamos duas ou três horas transando na cama deles, e aquilo me incomodava demais, me fazia sentir a pior das pessoas pela simples questão da traição - e também pelo pavor que tinha de imaginar que ela poderia, a qualquer hora, aparecer por lá por "sair do trabalho mais cedo" ou algo do gênero.

Por outro lado, o F. era perfeito porque era muito bom de cama, e também porque não queria qualquer envolvimento além do sexo em si, ou seja, ótimo para quem, como eu, não queria de forma alguma ter um pseudo-namorado no pé para não dar bandeira. O problema é que não precisei de três encontros para ficar totalmente GAMADO - o que destoava totalmente de nossa proposta inicial.

A única solução viável seria acabar com os encontros. E parece que o F. sentiu a mesma coisa visto que, em nossa última transa, ele decidiu que não deveríamos mais nos encontrar. Não sei qual o motivo que o fez chegar à esta conclusão, talvez peso na consciência, sei lá. Concordei imediatamente, aliviadíssimo, mas não posso negar que sofri bastante. Na verdade, F. foi o primeiro cara que conseguiu me fazer chorar. Com ele, aprendi que o mundo gay pode ser bem cruel, não por conta dos crimes de ódio ou por preconceitos, mas porque caiu a ficha de que um relacionamento homossexual, seja sério ou descompromissado, seja às claras ou totalmente furtivo, jamais poderia ser vivido de forma tão simples como um relacionamento hétero. A certeza de que ainda me machucaria muito somente por ser gay doeu pacas. Nunca mais vi ou soube do F.

Bem, de volta à estaca zero, e ainda louco para encontrar minha "turma". E foi aí que descobri que minha cidade abrigava um dos maiores e mais comentados pólos gays do estado, e eu nem sabia disso! Mas esta é uma outra história, e fica para a próxima. ;-)

Ass.: L.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O Outro Diário de Bordo 3: picardias estudantis (e de trabalho também)


O Diário do L. 1 | 2
O Diário do R. 1 | 2 | 3 | 4 | 5

Dizem que 15 anos é a primeira "idade importante" das pessoas, afinal é a fase que carimba as mudanças físicas e o amadurecimento psicológico de cada um - aquele lance todo de transição criança-adolescente e conseqüente "treinamento" para a vida adulta. Comigo, obviamente, não foi diferente. Muito pelo contrário: minha vida em 1995 sofreu uma alteração tão brusca, tão 180º, que eu tinha até mesmo a sensação de ter sido trocado de corpo.

Além das mudanças na rotina de estudos (minha conclusão do curso básico e a recém-chegada ao colegial, mais exatamente em um curso técnico, com novos amigos e nova realidade) e também na rotina profissional (um estágio de alguns meses na área em que cursava e em seguida um emprego registrado, um grande desafio para um pivete), meus 15 anos constituíram também perceptíveis mudanças de corpo: os pêlos pubianos apareceram do nada, a barba começou a crescer com mais violência, ganhei alguns centímetros de altura e outras coisas ficaram, er... "maiores", hahaha. Acima de tudo, aos 15 anos comecei a raciocinar e a agir como um quase adulto, deixando o lado pivete para trás de vez.

Foi também quando comecei a ficar mais malicioso e a ter uma percepção mais chauvinista das coisas... claro, percepção esta adaptada a um pensamento tipicamente homossexual. Nada de querer papar as menininhas; o que eu queria mesmo era carcar os menininhos. Taradão! ;-)

O lance no colégio era bem tenso. Como fui literalmente forçado a cursar o ensino médio na área técnica, escolhi a área de Informática Industrial e me vi de repente em um colégio particular localizado na área nobre da cidade e com índice de 0% de "feiúra por metro quadrado" (!). Pra piorar, o curso que escolhi quase não tinha adesão feminina, ou seja, para qualquer lado que se olhasse, só se via homem. Ou quase: na verdade, eram mais moleques de 15 a 17 anos, com corpos à beira da perfeição, do tipo estudo-quatro-horas-por-dia-e-as-vinte-horas-restantes-passo-surfando. Lugarzinho estranho e novo pra mim, mas rapidamente me adaptei e arrumei uma penca de amigos.

Meu primeiro contato real, afetivamente falando, com este novo universo aconteceu aí: como éramos uma classe só de garotos, a maioria das brincadeiras eram carregadíssimas de conotações (homos)sexuais. Um dos meninos, o garoto D., não tão bonito mas com um pusta porte atlético de parar o trânsito, era o mais safado de todos e adorava passar a mão no povo, imitar gays etc., e calhou que, ao melhor estilo "contos eróticos do Mix Brasil", fomos sorteados para fazer um trabalho em dupla juntos, e fui fazer o tal trabalho na casa dele, e estávamos sozinhos, e deixamos a matéria de lado para ver um filme pornô, e o menino D. lançou a velha mas altamente bem-sucedida "estou com o maior tesão, posso tocar uma aqui? Fica à vontade para fazer também", e aí... bem, você já imagina o que aconteceu.

Nada, porém, que fugisse muito do esqueminha bate-pra-mim-que-eu-bato-pra-você (!), o que pra mim não contou muito como experiência. Àquela altura, já cansado das brincadeirinhas de criança, eu queria mesmo era dar a minha primeira e tão esperada TREPADA, no sentido mais amplo, sujo e clássico da palavra, e não apenas um rápido handjob com um menino que provavelmente nem era gay e sim um adolescente com os hormônios explodindo e louco para extravasar de alguma forma. (Claro que não expus meu real ponto de vista e fiz parecer que eu TAMBÉM era só um moleque hétero que não conseguia pegar mulher e queria gozar de qualquer jeito.)

A tal "grande experiência", o tal "grande momento", o popular "perdi o cabaço" aconteceu neste mesmo ano, mas em outro núcleo da minha novelinha "Malhação" particular. ;-)

Paralelamente às minhas peripécias estudantis (!), consegui um emprego em uma assistência técnica de computadores, mais exatamente como auxiliar de estoque, após concluir o período obrigatório de estágio na própria escola dos sonhos em que eu estudava e ganhar uma transferência para o curso de Processamento de Dados no período noturno, que nem era tão divertido assim... Enfim, não era difícil, neste novo emprego, perder minhas primeiras aulas no colégio por ter que contabilizar horas-extras no depósito, à espera dos técnicos de campo (todos moleques estagiários engravatados entre 15 e 20 anos) que tinham que descarregar os materiais e equipamentos de reposição ao final do dia, pouco importando a hora que fosse.

Um dos técnicos, o garoto E. - ruivinho no alto dos seus 18 anos, com uma namoradinha à tiracolo e uma semelhança inacreditável com o caubói de brinquedo do "Toy Story" -, era constantemente sacaneado pelos outros, que o chamavam de "viado", "frutinha" e tals, tudo na mais pura brincadeira. O sujeito nem se incomodava e alimentava ainda mais o sarro da molecada do trabalho, e este detalhe meio que despertou o meu gaydar, aquele "faro" que todo gay tem com relação a supostos "também gays"... sentindo um fundo de verdade naquela zoação toda, disfarçadamente comecei a jogar um verdinho, pra ver se colhia maduro.

E não é que rolou? Certo dia fiquei no depósito até 8 da noite, fazendo serão, e eis que o E. chegou, com uma penca de material para descarregar. Mesmo cansadão, mas prevendo alguma coisa inconscientemente, fui lá e ajudei. Depois do trampo todo, o E. deu a desculpinha esfarrapada de que "não tinha mais nada a fazer" e ficou por lá jogando conversa fora comigo. Nem lembro como aconteceu direito, só sei que de repente um começou a dar indiretinhas para o outro e, quando vimos, estávamos lá, trancados, no meio dos computadores do estoque, no que podemos categorizar tranqüilamente como a minha primeira experiência sexual de verdade. E foi completa, praticamente como se vê em filmes do gênero (hahaha), com início nos beijos, seguindo pelas preliminares e culminando com o ato em si. Maior legal que, logo na minha "estréia", matei dois fetiches típicos, sendo a) trepada com homem de uniforme, e b) trepada no ambiente de trabalho! :-D

Deixando as piadinhas de lado por um instante, o ato em si foi bastante cru, visceral até, com todos os "erros" de qualquer transa entre dois jovens inexperientes que estão se descobrindo e também descobrindo o outro; de que forma tocar, como beijar, onde beijar, até onde encostar as mãos, qual a posição mais confortável, como penetrar sem ser vencido pela dor... até como lidar com os inevitáveis pêlos pubianos (quem nunca interrompeu um sexo oral para tirar pentelho da boca que atire a primeira pedra. HAHAHA! Nojinho...). Enfim, nem saberia dizer se foi bom ou ruim; limito-me a dizer que foi MARCANTE e MUITO ESPECIAL.

Esta primeira "grande experiência" serviu sobretudo para me afirmar de vez como homossexual convicto, sem qualquer possibilidade de oh-não-sei-o-que-quero-de-minha-vida. O passo estava dado e ponto final; não havia mais armário algum, não pelo menos em minha mente. Não foi o que aconteceu com os outros: o D. só vi durante o período de escola, depois nunca mais, e mesmo com mais um ou outro "trabalho em dupla" que fizemos (hahaha), o cara arrumou uma noiva e, apaixonadíssimo, comprovou minha velha teoria de que realmente era o protótipo do hétero que só queria se divertir um pouco.

Já o E., que me confessara seu homossexualismo em certa ocasião, infelizmente não conseguiu encontrar a chave do seu próprio armário e, por ser filho de uma figura pública da cidade e outras várias razões, optou por fazer parte hoje do inglório time dos casados e pais de família que correm atrás de michezinhos na rua enquanto as esposas pensam que estão fazendo hora extra. Triste. (Nos cruzamos ocasionalmente pela cidade e, até por respeito um ao outro, fazemos de conta que nada nunca aconteceu, mas a cumplicidade silenciosa de ter vivido um lance bacana existe e a gente percebe no olhar.)

Bem, acho que só pelo relatado, nota-se que meus 15 anos foram bem rodados (hummm). Bem, primeiro passo dado, etapa concluída. Agora, já que tinha certeza absoluta do que eu era, precisava saber onde estavam os outros que também eram. E logo descobri... mas isso fica para a próxima, que este texto já está gigante! ;-P

Ass.: L.

terça-feira, 24 de março de 2009

O Outro Diário de Bordo 2: curiosidades e descobertas


Pode até ser que eu esteja errado, mas duvido que haja algum homem no universo, seja heterossexual ou homossexual, que não tenha participado alguma vez dos infames troca-troca entre molecadas na pré-adolescência. Todos passam por isso. E no meu caso, o ocorrido, por mais inocente que tenha sido, foi imprescindível para que eu entendesse o que sou, o que me agrada e o que não me agrada. E realmente foi bastante inocente - não podemos nos esquecer que, há quinze anos atrás, a Internet era uma utopia e os jovens não tinham acesso tão fácil e rápido a qualquer espécie de informação.

A rua em que moro sempre foi bem tranqüila, daquelas em que as crianças podem brincar sozinhas até a noite, e eu tinha amizade com todos os garotos da minha faixa etária. Andávamos sempre juntos e esta fase compartilhei com todos eles. Tinham, entretanto, três garotos com a minha mesma idade (na época 13, hoje 28) que eram mais próximos, e foi com estes três que as experiências tornaram-se mais fortes. Quando estávamos somente nós quatro, com certeza não saía coisa boa! Hahaha.

O garoto A. foi o primeiro. Um dia ficamos sozinhos, e no meio de uma sessão de masturbação, decidimos que seria legal um bater para o outro (!). A partir daí, sempre dávamos um jeitinho de nos separar da turma para ficarmos sozinhos e fazer as coisas ao nosso modo, que era muito mais divertido. Em seguida, começaram a participar das brincadeiras o garoto B., vizinho de porta como o A. e meu melhor amigo, e o garoto C., primo do B. que morava em outra cidade mas passava as férias sempre conosco.

Com eles, experimentei as primeiras emoções e uma leve idéia da complexidade que é envolver-se sexualmente com alguém - nesta época aprendi o que é sexo oral, quais eram os pontos da anatomia mais sensíveis ao toque, qual era a sensação de tocar a nudez de uma pessoa do mesmo sexo. E tive a certeza do que eu sou nestes momentos, já que eu era visivelmente o mais empolgado, na falta de uma palavra melhor, quando surgia a possibilidade de nos reunirmos para dar voz às nossas curiosidades naturais.

Nesta época, também senti traços do que hoje digo que foi a primeira vez em que senti algo próximo a amor. Rolava uma taquicardia violenta quando o garoto B., o mais boa-pinta da turminha, estava presente nas brincadeiras, e sentia um pouco de raiva (que hoje sei que na verdade era ciúmes) quando ele, em meio aos nossos joguinhos sexuais, aproximava-se mais dos outros meninos. Claro que nunca aconteceu nada além disso. Não tínhamos maturidade suficiente para compreender o que se passava em nossas mentes e, de qualquer forma, aquilo tudo para nós era somente uma grande brincadeira. Por incrível que pareça, não havia malícia.

Estes eventos duraram até os nossos 14 anos, quando a turminha começou a se dispersar gradativamente, por coisas da vida: um se mudou, o outro foi estudar em outra cidade... Ainda tenho contato com meus três amigos mais próximos, e dos três, fui o único a me descobrir homossexual. O garoto A. mora em uma cidade vizinha com uma namorada, mas sempre está por aqui e conversamos bastante; o garoto B., o tal amor platônico, engravidou uma menina e, mais tarde, amigou-se com outra que também teve um filho seu; e o garoto C. não aparece mais na rua, mas sempre nos vemos pois trabalha no mesmo prédio que eu. Ele não é casado, mas tem três filhos, cada um de uma mãe diferente (!!).

Ainda hoje, quando nos encontramos, comentamos sobre o que compartilhamos no passado e damos boas gargalhadas - à exceção do garoto C., que não pode nem ouvir falar disso que já quer sair esmurrando meio mundo (mesmo sendo, ironicamente, o mais "passivo" nos nossos joguinhos e, conseqüentemente, aquele que eu poderia jurar que se descobriria gay no futuro). Curiosamente, um dos garotos da rua, que NUNCA participou de qualquer intimidade com o resto da garotada e para nós não passava de um menino muito esnobe, mais tarde confessou seu homossexualismo a mim e tornou-se o pivô de um momento bem traumático de minha vida no que diz respeito a relacionamento afetivo.

Mas isto é assunto para um capítulo futuro. Até a próxima! ;-)

Ass.: L

O Outro Diário de Bordo: o início


Até onde posso me lembrar, sempre tive plena consciência de minha homossexualidade. Desde pequeno mesmo, desde os tempos do colégio, desde os 10 ou 11 anos. Nunca precisei de nenhum teste, nenhuma prova: eu simplesmente não olhava para as meninas, e sim para os meninos. As famosas e clichezentas brincadeiras de médico só poderiam ter meninas se elas fossem secretárias ou moças da limpeza. Hahaha!

Claro que o comportamento masculino, ou o que se espera de um comportamento de um moleque, não mudou. Sempre gostei de brincar com carrinhos, jogar bola na rua, elaborar centenas de histórias de ação com minhas coleções de bonecos do He-Man e do Comandos em Ação. Sem querer desmoralizar ou denegrir a imagem dos gays mais, na falta de uma palavra melhor, delicados (se o termo saiu grosseiro, peço mil perdões, de verdade), nunca me deixei dominar por trejeitos, nunca tive intenções de "virar uma mulher" ou agir como uma, e sempre tentei manter uma postura extremamente masculina.

Sem falsa modéstia, acho que sou bem-sucedido, pois até hoje muita gente sequer desconfia de minha condição sexual. E olha que quase 90% do meu ambiente rotineiro é de predominância hétero.

O que não significa que eu não conviva bem com o que sou. Adoro ser gay, de verdade. Nunca tive qualquer espécie de conflito interno, nunca pirei e sempre me dei muito bem comigo mesmo do jeito que sou. Nunca senti a menor culpa por desejar outros homens. E olha que aprontei muito, muito mesmo! Embora não tenha a menor vontade e o menor talento para a poligamia, para a promiscuidade ou para a prática do coito com vinte sujeitos a cada semana (!!!), não posso negar que tive uma adolescência e início de fase adulta muito agitadas em termos afetivos e principalmente sexuais - tudo, claro, com sua devida proteção.

Acho que até mesmo por ter tido uma vida sexual bastante ativa, hoje me sinto muito mais tranqüilo e interessado somente em curtir uma vida de casado com um parceiro fixo, de preferência que eu ame e que me ame também (certamente o meu maior acerto até agora).

Antes de tudo, porém, não nego que até tentei experimentar uma vida hétero - nada de sou-cheio-de-conflitos-porque-sou-bicha ou de eu-não-pedi-pra-ser-assim-e-quero-morrer, eu simplesmente queria ter uma garota para ter certeza do que MEU CORAÇÃO queria. Aos 13 anos, namorei uma menina por quatro meses e ela quis terminar porque "me achava muito devagar" (hahaha), tanto que neste meio tempo o máximo que fiz foi meter as mãos nos micro-seios dela. Na escola, troquei beijinhos com uma ou outra garota, mas também nada de mais. E a cada um destes beijos, mais certeza eu tinha de que o meu negócio era homem mesmo. Lascou-se tudo! Hehehe.

Meu primeiro contato com o mundo gay aconteceu aos 13 anos mesmo, da forma que começa para a maioria: com a molecada vizinha, uma turma de uns 7 ou 8 meninos, todos da mesma faixa de idade (entre 13 e 16 anos), em brincadeiras até inocentes. Todos nós tínhamos pais que trabalhavam o dia inteiro, irmãos que estudavam à tarde, e como estudávamos na parte da manhã, tínhamos a tarde livre e uma penca de "casas vazias" para explorar nossa sexualidade da forma que quiséssemos.

Então, sempre tinha um que aparecia com uma revistinha de sacanagem, outro que descobria uma fita VHS pornô escondida no armário do irmão mais velho... e lá ia todo mundo para a casa de um ou de outro, para ver o filme, ler a revista e, óbvio, fazer aquelas infames brincadeirinhas de comparar o tamanho e os detalhes. Para os mais novos, era muito engraçado ver a nudez dos mais velhos, já com pêlos pubianos e bem mais, er, desenvolvidos. Daí para os campeonatos de bronha foi um pulo. Alguém colocava um filme pornô pra rodar e todo mundo começava a se masturbar ao mesmo tempo, todo mundo na frente de todo mundo - mal sabiam eles que eu já me masturbava não pensando no filme, mas sim na visão que o evento me proporcionava... Hahahaha!

Desta turma, tinham três garotos que eram os mais próximos a mim, e que seriam meus "parceiros" nas descobertas mais, digamos, intensas. Mas esta história fica para a próxima. Muita água ainda vai rolar! ;-)

Ass.: L

Diário de Bordo 5: o encontro oficial.


Eu saí do bar com uma sensação hiper estranha. Havia comentado com ele, que estava ainda meio caído pelo meu ultimo namorado, e precisaria levar um tempo. Mas, as coisas eram diferentes agora. Aquele cara que eu estaria inicialmente (e futilmente) levar para cama, tinha realmente mexido comigo. E eu o amaldiçoei mentalmente, quando ele disse que teria que ir embora, e com isto aquele papo tão fluente estava acabando. Trocamos telefones, e fiquei na expectativa.

No dia seguinte, nos falamos no telefone. Ele ria muito, parecia nervoso, e nem imaginava o quanto eu também estava nervoso do outro lado. Marcamos para mais tarde. Eu que não era muito ligado em roupas, comecei a escolher o que melhor se encaixava. Sai de casa, e encontrei minha prima no portão, ela me disse que eu estava muito bonito. Aquilo me encheu de forças. Cheguei ao ponto de ônibus, e meu celular deu um toque, e vi um telefone estranho. Achei que era ele, mas era outra pessoa. Era um tipo de telemensagem com uma cantora (que eu odiava por sinal), que havia sido enviada pelo meu ex-namorado.

Fiquei naquela, parado no ponto olhando para o celular.Liguei para meu ex-namorado, ele disse que estava testando este novo serviço, e começou a puxar papo e perguntando se eu tinha algo para fazer mais tarde. Meu cérebro entrou em curto, pois há muito tempo esperava o reencontro, e ter uma nova oportunidade com ele. Quando olhei para frente, vi o ônibus se aproximando, e tomando as maiores forças e coragem do mundo, disse que já estava de saída. Ele se desculpou e mandou um beijo, e não tive coragem de corresponder e disse tchau. Aquele caminho até o bar, parecia longo demais, e meus pensamentos iam e voltavam, e olhava varias vezes para o celular.

Pensava em desmarcar e encontrar meu ex, mas fiquei naquela, sentido e lembrando da sensação boa que tive no primeiro contato com meu futuro encontro. Disse em voz baixa um foda-se e segui no ônibus. Cheguei lá, e logo depois ele chegou, pegamos uma mesa, desta vez eu não ficaria na solidão do balcão. O papo continuava bom, adoro a voz dele, o jeito de falar. Mas, insistia da gente tentar se conhecer, rolar uma amizade e depois namoro. E eu teimava dizendo que queria namorar e pronto. Passamos a noite inteira falando das experiências amorosas anteriores, de trabalhos, gostos de musicas, e é claro, a costumeira mania de tirar sarro de algumas figuras estrambólicas que apareciam por lá.

A sintonia era incrível e inimaginável. Pela primeira vez senti certo esquentamento na parte detrás da nuca, quando ele encostou-se a minha mão. As coisas deram certo aquele dia? Pode ter certeza, ainda mais que aquele dia esta durando quase seis anos.

Ainda lembro do primeiro beijo escondido na praia à noite. Do primeiro filme no cinema de mãos dadas. Do primeiro encontro com minha família. Das minhas revelações as minhas primas. De nossa primeira viagem. De nossa primeira ida a São Paulo. E da primeira vez, que numa praça de São Vicente, eu virei para ele e disse que o estava amando. E das tentativas frustradas de meus ex-namorados que tentaram um novo contato. Da primeira vez que entramos numa boate de mãos dadas. Do primeiro dia dos namorados. Do primeiro dia que entramos num motel, e estávamos muito nervosos com nossa primeira relação sexual. Das primeiras confidencias. Dos primeiros aniversários.

E com certeza, reviveria todas as decepções com meus antigos namorados, só para depois encontrar meu grande amor, e viver estas primeiras emoções. Que gostaria que fossem eternas, como as primeiras promessas.E que descobri que sofri de paixão pelos meus ex-namorados. Mas só dele, que senti amor.

Pois paixão é quente e passageira.

E amor é terno e eterno.

Eu te amo.

Diário de Bordo 4: um banquinho e um balcão


Meu último serviço era meio escravo, o que me dava poucas oportunidades de férias. Então quando conseguia dez a quinze dias, era fantástico. Lá estava eu em pleno domingo, querendo usar meu penúltimo dia de férias, já que na terça-feira eu teria que voltar. Ainda triste pelos acontecimentos amorosos, convidei meu primo para irmos pegar uma mesinha no finado barzinho GLS Help.

Mas, encima da hora, meu primo me deu um cano. Fui eu lá, e peguei meu famoso banquinho em frente ao balcão, e curti minha assustadora solidão com meu copo de soda. No meio da noite, senti que estava sendo observado, o que não era novidade naquele ambiente. Fitei meus olhos na pessoa, e lá estava ele sentado numa mesa com mais dois amigos. Usava uma blusa listrada, magro e com um rosto marcante. Ao passar do tempo, conforme nossos olhares se cruzavam, ele meio que no nervosismo, tirava e colocava a blusa.

Eu tenho até um pouco de vergonha de dizer, que naquele momento, tive um grande impulso sexual por aquela pessoa.A noite estava terminando, e via outras pessoas que estavam junto dele me olhando também, como se tivessem me observando para dar nota... opinião... ou sei lá o que. Até que ele foi para fora, e não o tive mais no campo de visão. Do nada ele reapareceu, e veio em minha direção. Como um bobo eu fiquei meio tremulo e segurei a respiração, mas para minha decepção, apesar do estar olhando para minha direção, o filha da mãe passou direto e foi perguntar algo no caixa. E foi ele embora, para minha amarga solidão.

Fui meio chateado para casa, achando que não sabia realmente ler os tais sinais da paquera. Na sexta-feira seguinte, estava eu lá de novo, vi duas pessoas e achei que uma delas era ele, mas ao olhar atentamente vi que não era, infelizmente. No sábado, marquei presença e ao chegar já o vi sentado com os amigos. Dei uma olhadinha e segui para meu banquinho. Continuávamos a cruzar olhares, e realmente não estava errado sobre os sinais. Do nada, ele sentou do outro lado do balcão, pediu um refrigerante (o que já ganhou pontos, por que não era algo alcoólico) e continuávamos aos nossos olhares incessantes. Até que ele puxou para cima o banquinho e me ofereceu para sentar.

Na hora fiquei naquela, já muitos ali me ofereceram lugares e conversas e eu não dei bola. E aos que dei este espaço, me arrependi muito. Mas ele olhava para mim, com aquele sorriso em formato de boca de gato. E por impulso, me levantei e sentei ao seu lado. Muito simpático e falador, me fez senti a vontade. Acabamos contando muito sobre nós, e no meio da conversa até troquei seu nome por causa do apelido que seu colega o chamava.

E ele olhou para mim e se levantou, disse que ia ao banheiro, mas deixaria a jaqueta branca dele encima do banquinho, pois era cara e eu não teria coragem de fugir e deixá-la ali. Eu sorri, e o vi afastar.Voltando do banheiro, trocamos e-mails (era a primeira vez que dava meu e-mail pessoal para alguém, e não o secundário) e telefones. O papo fluía perfeitamente, até que ele interrompeu e disse que precisava ir embora. E eu querendo ficar mais um pouquinho com ele. E ele falou que nos falariamos.

Ass.: Ray

Diário de Bordo 3: perdido no espaço GLS


Bem, tinha meus 26 anos, e quase nenhuma experiência com o mundo GLS no litoral santista. Só tive três experiências, uma vez fui ao Equilíbrio, antigo bar lésbico no alto da Ilha Porchat (para falar a verdade, não sei se continua a funcionar). Fiquei grande parte do lado de fora junto com meu pretenso namorado. Na segunda vez, este mesmo me levou para conhecer a The Club, que na época tinha outro nome.

O lugar parecia casa mal assombrada, tinha no máximo uns 15 gatos pingados espalhados. Então, ainda não tinha experimentado o “fervo” que tanto diziam sobre as boates cheias. A terceira, foi com meu terceiro pretenso namorado. Ele me levou num barzinho no fim da Conselheiro Nébias, chamado Help. Local aconchegante, estava ainda no inicio, Gostei muito do clima. Após o fim deste namoro, tomei a coragem e fui freqüentar sozinho este bar. Ele havia ficado mais conhecido e enchia quase todos os fins de semana. Mas, eu ficava sentado a beira do balcão, bebendo minha soda (dificilmente bebo álcool), e virava alvo dos olhares e comentários das outras pessoas no bar.

O mundo GLS tem dessas, se você é carne nova no pedaço (mesmo não sendo o mais belo dos belos), você vira uma porção de açúcar no meio do formigueiro. Todos querem saber de você, lhe chegam perto e fazem perguntas sem sentido. Como eu ficava só olhando, um deles chegou até a dizer que eu era um repórter cobrindo a noite gay e quis dizer o nome dele para eu não esquecer de colocar na matéria. Houve momentos estranhos, como um casal de gays que chegaram e ficaram sentados próximos de mim. Um deles não parava de olhar para mim, até na hora de um deles ir ao banheiro, e o que me observava chegar a mim e dar um papel anotado e dizer: “me liga no horário comercial”.

Fiquei sem entender, até conversar com meu ex-namorado, e ele dizer que conhecia o cara, que era sustentado pelo o outro. E que só podia ligar no horário comercial, por que era a hora que o marido dele trabalhava. Não sei se achei engraçado ou até um mesmo triste, por causa do outro cara, pois eu não deveria ser o primeiro a receber propostas do tipo. Outro dia, vi um belo homem, já beirando os 40. Bem arrumado e muito bonito. Ele foi se chegando, fingindo que só ia conversar com o amigo dele que estava sentado ao meu lado. Até que ao me fitar os olhos, veio enfim conversar comigo.

O problema que o papo não me agradou muito, pois ele estava a mais tempo no mundo GLS, era bem fervido e no dia seguinte iria à Parada Gay. Aquilo para quem estava entrando ainda pela porta dos fundos no mundinho gay, era assustador. Podia até ser um pouco de preconceito meu, mas era tudo novo demais, tive medo.Tive momentos engraçados e constrangedores. Chamei meu primo para conhecer o barzinho, me empolguei e entrei na caipiroska, que estava carregadíssima de Vokda.

O que para alguém que não tem costume de beber, é um perigo. A bebida me deu uma coragem de super-herói, o que me fez encarar o cara na mesa vizinha. O flerte foi tão grande que ele me chamou para conversar na mesa dele e trocamos até beijos. No final, para constrangimento de todos, ele estava indo embora, quando o puxei pelo pescoço e o beijei. O que a bebida não faz, né?Em breve conto mais experiências que tive no barzinho, que direcionaram para a grande transformação na minha vida.

Ass.: Ray

Diário de bordo 2: desventuras em série


Sim, deixei de procurar só sexo, resolvi procurar o amor. Mas como? Eu não freqüentava locais GLS e até tinha um preconceito meio bobo sobre tais lugares, além do medo de se expor. É claro, lá vou eu procurar na internet. Mas, como comprovei, romances que começam na internet tem no máximo 10 % em dar certo. Conheci muita gente, mas se no mundo real as pessoas criam máscaras, personagens e tudo mais, imagina no virtual. Conheci príncipes encantados, machões convictos e românticos inveterados.

Que na realidade eram canalhas, afeminados ao maximo e grande curtidores de... sexo.Não criem uma imagem má de mim, não sou contra afeminados, só não curto mesmo. Pelo menos nenhum deles passou no meu caminho e me deu afinidade. Pois, nunca podemos dizer nunca. E sim, curto sexo e muito sexo. Mas nada que não possa ser trocada por uma noite de carinhos e abraços com o torso nu. Você deixa bem claro com as pessoas, que procura namoro.

Mas as perguntas do outro lado sempre são sobre tamanho do pênis, se moro sozinho ou quais minhas preferências: ativo ou passivo?? Sei lá, a internet não só emburreceu o português de certas pessoas, como trouxeram para fora de tímidos, o pior tipo de tarado sexual. Sei lá, não custa nada às pessoas manterem certos limites, e deixa de enxergar a outra pessoa no bate-papo apenas como um objeto. Pois assim como tem muita gente procurando apenas sexo, tem também muitas que estão sozinhas, e que ao encontrarem certos tipos de pessoas acabam ainda mais cercadas com a solidão.

Da internet me surgiram três relacionamentos de curto prazo. Um cara que se dizia querer terminar seus dias ao lado de uma pessoa, mas no fim acabou vendo que a vida monogâmica é sem graça. Um segundo cara que ficou o tempo inteiro preso a um passado com uma outra pessoa. E o terceiro que era uma pessoa maravilhosa, mas os dois sabiam que seria como mergulhar óleo em água. Pois as pessoas no mundo gay, não querendo generalizar, mas em grande parte dizem querer ter um grande amor, viver a vida ao lado dele, mas ao ouvir o primeiro som da boate, ou a cara nova que surgiu no mundinho GLS, que esquecem totalmente esta vida.

A internet meio que estragou parte da minha vida, pois nela acabei desacreditando um pouco do sentimento humano, e me achando uma alienígena no meio do mundo GLS. Pois até os caras coroas não queriam um relacionamento, só estavam afim de um cara mais novo para transar.Então, por mais irredutível que eu parecia, acabei tendo que acessar o mundo real GLS, saindo de trás da tela do PC. E botando a cara a tapa. Por mais difícil que fosse.

Continuo em breve,

Ass.: Ray

Diário de bordo: o pequeno menino homo

Resolvi abrir esta nova seção para desabafar. Falar um pouco da minha sexualidade, sobre minhas escolhas e quem sabe, isto não sirva de exemplo para os “news gay” que estão surgindo por aí. Ou para abrir um debate na mente de vocês.Quando criança, sempre adotei uma postura hetero (ou tentava em grande parte), brincava na rua, fingia namoros como meninas, mas no intimo a curiosidade crescia. Crescendo um pouco começou o famoso troca-troca com amigos, mas nada demais, coisa de moleque, a mão naquilo, aquilo na mão, sobe em cima, brinca com aquilo e afins.Mas, na minha mente a atração pelo mesmo sexo existia, mas por criação, por ter certa fixação pela bíblia quando mais jovem, eu meio que ignorava ou deixava as coisas só na imaginação, ou só nos famosos troca-troca sem penetração.


A gente vai crescendo, e acaba caindo de cabeça no relacionamento hetero. Tenta de tudo, sofre, força a barra, mas as coisas realmente não andam. Fiz uma besteira de continuar um namoro hetero que foi péssimo para ambos os lados, tanto que hoje a pessoa não olha mais para minha cara. E as poucas ligações homossexuais eram terríveis, o que levou até ao fim de uma amizade, pois a pessoa acabou gostando de mim.Por incrível que pareça, fiquei um longo tempo nisto, só beirando os 25 anos que resolvi encarar a homossexualidade como vida, assim como um primo meu, fui seduzido pela internet.



Não freqüentava locais GLS, mas tentava sanar a atração homo com encontros casuais pela internet, até que o vazio me tomou.Com a doença de alguém próximo, acabei enxergando a vida de outro ângulo. E parei de olhar a homossexualidade como algo extremamente ruim. Pois a vida pode ser curta, e certos pesos têm que se tirar das costas, para torná-la (a vida) no mínimo suportável. E resolvi deixar de enxergar o sexo, e passei procurar o amor, por mais que este caminho seria um pouco estranho para mim.



Em breve, continuo.



Ass.: Ray

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